Project Management Institute

Jogada de energia

Projetos de energia renovável estão alimentando o futuro brilhante do Marrocos. Mas existem desafios para redefinir a rede de eletricidade

DE NOVID PARSI

img

FOTO: JALAL MORCHIDI/ANADOLU AGENCY/GETTY IMAGES

A usina solar Noor 1, em Ouarzazate, no Marrocos

Diferente de outros países do norte da África,

Marrocos não possui recursos petrolíferos em abundância. Assim, depende de importações de combustíveis fósseis para 97 por cento de suas necessidades domésticas de energia. Mesmo assim, o Marrocos possui muitos recursos de energia alternativa, o que significa um grande potencial para projetos nesta área, disse Amine Araqi Houssaini, PMP, gerente de projeto sênior da empresa de engenharia e construção Elys Sas, Casablanca, Marrocos.

Os líderes do país estão ansiosos para transformar esse potencial em projetos reais. O governo pretende ter 52 por cento de sua capacidade de energia proveniente de fontes renováveis até 2030. E está no caminho certo: cerca de 35 por cento da capacidade de energia do país agora vem de fontes renováveis. Hoje, o Marrocos é amplamente considerado um líder global em energia renovável.

Isso se deve em grande parte graças ao programa de energia solar Noor Ouarzazate, de US$ 9 bilhões. Em uma área de mais de 3.000 hectares em Ouarza- zate, quatro usinas solares formam uma das maiores fazendas solares do mundo. Ele compensa 760.000 toneladas de emissões de carbono e fornece 580 megawatts (MW) para atender às necessidades de eletricidade de mais de um milhão de pessoas. O Noor Ouarzazate foi concluído em 2018 e, em 2019, a Agência Marroquina de Energia Sustentável, comumente chamada de Masen, deu início ao processo de licitação para mais dois projetos de fazenda solar de Noor. Uma vez concluídos, os projetos devem ultrapassar Noor Ouarzazate, entregando uma capacidade combinada de mais de 1.000 MW.

O setor de energia eólica do Marrocos também tem se mostrado robusto. Em Tarfaya, o parque eólico da Siemens Gamesa — o maior da África quando foi construído — gera 300 MW, energia suficiente para 1,5 milhão de residências. Em 2020, a empresa lançou um projeto para construir um parque eólico de 300 MW em Boujdour, parte de um programa de 850 MW de cinco fazendas que começou em 2016.

“Este crescimento incrível deve continuar nos próximos anos”, disse Meriem Lhammoumi, gerente de projeto sênior, energia, joint-venture de engenharia JESA, Casablanca.

Mas isso só se o Marrocos puder enfrentar uma série de desafios que envolvem desde questões técnicas a logísticas e ambientais.

FAZER DAR CERTO

A energia renovável só é útil se a rede elétrica puder se conectar a ela. Atualmente, muitos dos componentes da rede do Marrocos, como subestações e cabos, não são dimensionados para poderem ser conectadas a novas usinas de energia renovável.

“Portanto, embora o Marrocos tenha muitos lugares com bons recursos solares e eólicos, não é viável construir usinas de energia se não for possível conectá-las à rede”, disse Amine.

Para expandir exponencialmente o número de locais de projeto em potencial — e para que o portfólio de projetos do país realize plenamente os benefícios pretendidos —, o governo e o provedor de serviços públicos precisarão se adequar à rede, acrescentou ele.

Até agora, o Marrocos permitiu que organizações renováveis do setor privado se conectassem às partes de alta tensão da rede elétrica. Isso ocorreu porque há muito menos organizações e partes interessadas na ponta da alta tensão do espectro de energia (20.000 a 400.000 volts) do que na ponta da média tensão (1.000 a 20.000 volts), então, era mais fácil gerenciar a implementação do projeto, de acordo com Amine.

No futuro, o governo precisará permitir que as usinas de energia renovável se conectem à rede de média tensão. “Isso vai acelerar as instalações e a participação das energias renováveis no setor de energia do Marrocos”, disse Amine. Porém, com mais participantes no segmento de média tensão, “será um desafio tanto em termos técnicos como de governança”, disse ele.

PROMOTORES LOCAIS E GLOBAIS

Embora o Marrocos tenha muitas fontes de energia renováveis, a experiência e os suprimentos do setor vêm em grande parte de outros lugares. Mas os patrocinadores, especialmente aqueles de projetos públicos maiores, muitas vezes demandam que as equipes contratem uma certa porcentagem de pessoas locais e priorizem bens e serviços locais em vez de importações. Os líderes de projeto precisam encontrar maneiras de aproveitar ao máximo as fontes e recursos locais e, ao mesmo tempo, alavancar uma rede global.

img

FOTO DE FADEL SENNA/AFP VIA GETTY IMAGES

Parque eólico de Tarfaya

“Os investidores públicos estão pressionando por uma maior integração dos atores marroquinos no setor de energia renovável para aumentar o conteúdo local e as capacidades dos projetos”, disse Meriem.

Por exemplo, em um projeto da Siemens Gamesa, em parceria com a Nareva e a Enel Green Power, para instalar um parque eólico de 180 MW em Midelt, as pás das 50 turbinas foram fabricadas inteiramente no Marrocos, em uma fábrica que a própria empresa inaugurou, em 2017. O projeto faz parte de um contrato maior de construção de energia eólica de 850 MW, programado para ser concluído até 2025.

“A estratégia de energia do Marrocos visa criar empregos, então, é preciso integrar os fornecedores locais”, disse Johannes Pieter Cools, diretor administrativo da Siemens Gamesa, Marrocos, Casablanca. “Damos preferência aos talentos locais”.

No entanto, os equipamentos especializados de energia renovável, como painéis solares e turbinas eólicas, ainda não são produzidos no Marrocos. E os suprimentos muitas vezes podem ser adquiridos a um custo menor em outras nações, como China ou Vietnã.

“Às vezes, há uma compensação entre localização e otimização de custos”, disse Johannes Pieter. “Você precisa encontrar o equilíbrio entre otimizar o equipamento e envolver os fornecedores locais — entre o que é politicamente necessário e o que é economicamente eficiente. Você tem que envolver fornecedores locais sem colocar em risco o business case do projeto”.

Uma forma da Siemens Gamesa atingir esse equi-líbrio é incentivar a fabricação de componentes que podem ser produzidos com eficiência no Marrocos e que podem levar ao desenvolvimento do núcleo de um aglomerado industrial. Além disso, embora o projeto possa depender mais de fontes externas durante a construção, ele contratará no local durante as operações. “Isso oferece oportunidades iguais para os recursos locais” disse Mohamed Ayadi, PMP, gerente de projeto onshore, Siemens Gamesa, Casablanca.

Para reforçar sua força de trabalho local, Elys Sas recruta e desenvolve talentos juniores, como engenheiros civis ou elétricos, disse Amine. Como gerentes de projeto juniores, eles passam os primeiros anos com a organização sendo treinados e orientados por gerentes de projetos seniores até que tenham as habilidades e competências para gerenciar seus próprios projetos.

img

A Siemens Gamesa comprometeu-se a ajudar todos os seus gerentes de projeto marroquinos a obter a certificação Project Management Professional (PMP®), disse Mohamed. Ao investir no desenvolvimento profissional agora, a organização está construindo um canal robusto de talentos para o futuro.

SONDAR O TERRENO

Embora o Marrocos tenha uma extensa rede de estradas e portos, nem sempre a infraestrutura é suficiente para mover equipamentos enormes de energia renovável até locais remotos, onde sejam necessários. “A infraestrutura representou um desafio durante o transporte de nossas grandes turbinas eólicas”, disse Mohamed.

img

— Mohamed Ayadi, PMP, Siemens Gamesa, Casablanca

O projeto Midelt da Siemens Gamesa é um estudo de caso na superação de desafios logísticos complexos: a obra, concluída no ano passado, teve como objetivo aproveitar ao máximo os ventos da região montanhosa. “Mas este projeto foi muito complicado por causa da geografia”, disse Moha- med. A equipe passou o primeiro ano inteiro do projeto de dois anos estudando cuidadosamente as rotas e modificando as estradas para que pudessem acomodar as turbinas. Essa árdua tarefa acabou sendo bem-sucedida: A fazenda Midelt, a primeira do programa de 850 MW, fornece 180 MW, abastecendo 120.000 residências.

Da mesma forma, um parque eólico de US$ 163 milhões e 90 MW em Taza, que começou a ser construído em 2020, aproveitará o vento do topo de uma montanha quando foi comissionado, em 2022. Mas o local apresentava sérios desafios ambientais, como temperaturas extremas. A equipe do projeto Elys Sas respondeu com o ajuste do cronograma quando possível, por exemplo, começando o trabalho nas primeiras horas da manhã e terminando ao meio-dia em dias muito quentes.

A área também recebe muita chuva. Os gerentes de projeto levaram em consideração essa realidade logística no momento do agendamento das tarefas, fazendo com que a equipe construísse estradas durante os meses que costumam ter menos chuva e, quando isso não era possível, utilizando um tra-tamento para reduzir a quantidade de água no solo.

img

Impulso do renovável

Esses projetos estão ajudando a redefinir o futuro energético do Marrocos.

FAZENDA SOLAR DE NOOR MIDELT

Patrocinadores: Masen (Marrocos), EDF Renewable Energies (França), Masdar (Emirados Árabes Unidos), Green of Africa (Marrocos)

Orçamento: US$ 2,3 bilhões

Status: Conclusão programada para 2022

O projeto compreende duas usinas solares que combinarão tecnologia termossolar com fotovoltaica

– uma tecnologia híbrida que irá melhorar a produção de energia e estimular preços mais competitivos. O projeto fornecerá energia limpa para mais de 1 milhão de pessoas.

PARQUE EÓLICO DE BOUJDOUR

Patrocinadores: Siemens Gamesa (Espanha), Enel Green Power (Itália), Nareva Holding (Marrocos)

Orçamento: US$ 435,4 milhões

Status: Conclusão programada para 2022

Com 87 turbinas e capacidade de 300 MW, o segundo dos cinco projetos que compõem o programa de energia eólica de 850 MW da Siemens Gamesa economizará quase 2,4 milhões de toneladas de dióxido de carbono por ano no Marrocos

– aproximadamente a quantidade consumida por Casablanca.

PARQUE EÓLICO DE TAZA

Patrocinadores: EDF Renewables (França), Mitsui (Japão), autoridades marroquinas de energia

Orçamento da 1.a Fase: US$ 163 milhões

Status: Conclusão programada para 2022

A primeira fase do projeto terá capacidade de 87 MW, chegando a 159 MW em sua segunda e última fase. O projeto irá gerar eletricidade anual suficiente para cerca de 350.000 pessoas, ou cerca de 70 por cento da população de Taza.

BARRAGEM HIDROELETRICA

Patrocinadores: Platinum Power (Marrocos), China First Highway Engineering Company (China)

Orçamento: US$ 300 milhões

Status: Lançado em 2019 O projeto de 108 MW é uma das oito barragens hidrelétricas que a fornecedora de energia marroquina Platinum Power planeja entregar.

LINHA DE ENERGIA MARROCOS-GRÃ-BRETANHA

Patrocinador Xlinks (Grã-Bretanha)

Orçamento: US$ 21,6 bilhões

Status: Proposta em 2020 A startup britânica Xlinks quer explorar a energia renovável do Marrocos — e enviá-la para a Grã-Bretanha. O projeto quer instalar 10 gigawatts de capacidade solar e eólica. Embora o conceito tenha sido lançado no pas-sado, os líderes da Xlinks acreditam que o projeto terá sucesso (apesar de outros terem falhado) por dois motivos. Primeiro, em vez de energia solar concentrada, usará energia fotovoltaica, que é mais barata. Segundo, em vez de enviar eletricidade por meio de interconectores na Europa continental, ela passaria cabos submarinos da costa africana à Grã-Bretanha, simplificando muito o processo de licenciamento.

img

Transporte de turbinas eólicas para o projeto eólico Midelt

“Tivemos que implementar soluções técnicas para climas extremos” disse Amine. Isso deman-dou da equipe planejar e fazer um orçamento para equipamentos especiais que pudessem lidar com cenários potenciais relacionados ao clima — mesmo que esses itens no registro dos riscos nunca se materializassem. “O risco é muito alto, por isso, é muito melhor se preparar e ter o equipamento no local”, disse ele.

PONTOS DE PIVÔ

O setor de energias renováveis do Marrocos não escapou dos efeitos da pandemia COVID-19, o que significa que os projetos foram afetados por tudo, desde atrasos nas aquisições até novos protocolos de segurança e equipes localizadas no mesmo lugar de uma hora para outra tendo que trabalhar remotamente. Ainda assim, as equipes em grande parte se ajustaram e mantiveram o ritmo, em vez de parar o avanço do projeto.

A Siemens Gamesa, por exemplo, contratou especialistas para treinar suas equipes para o trabalho remoto e implementou um plano de segurança para limitar a propagação do vírus. E quando uma paralisação relacionada à pandemia em abril de 2020 interrompeu o trabalho local no projeto do parque eólico de Taza por dois meses, a equipe passou esse tempo estabelecendo normas e procedimentos de saúde e segurança. A equipe também comunicou o protocolo de segurança a todos os membros da equipe e garantiu que eles o seguissem assim que o projeto fosse reiniciado, em junho, enquanto monitorava como o protocolo afetava o cronograma para a conclusão das tarefas.

“Foi preciso mais comunicação, mais planejamento e mais controle e monitoramento no dia a dia”, disse Amine. Porém, trabalhar — em vez de esperar sem fazer nada — durante a interrupção, permitiu à equipe começar a operar assim que o local de trabalho foi reaberto.

Além das preocupações urgentes com a saúde, a pandemia também criou e exacerbou os desafios de obtenção de recursos. Os projetos de energias renováveis do Marrocos contam com especialistas externos, como empreiteiros especializados na instalação de turbinas. Mas, de março a setembro do ano passado, o Marrocos suspendeu as viagens globais — interrom-pendo também o fluxo de conhecimento externo.

A equipe Midelt da Siemens Gamesa trabalhou com autoridades do governo marroquino para permitir alguns voos particulares, para obter os especialistas externos de que precisava. “Nós realmente minimizamos os atrasos por causa disso”, disse Johannes Pieter. Além disso, os líderes do projeto realocaram alguns membros da equipe local, como técnicos de manutenção, e os fizeram trabalhar na construção.

Essa resposta adaptativa a um obstáculo do projeto não se limita a uma iniciativa. Em vez disso, é um indicativo de que gerentes de projeto em todo o Marrocos estão ansiosos para alimentar a ascensão do país a uma potência global de geração de energia alternativa. PM

This material has been reproduced with the permission of the copyright owner. Unauthorized reproduction of this material is strictly prohibited. For permission to reproduce this material, please contact PMI.

Advertisement

Advertisement

Related Content

  • PM Network

    As pontes de Londres estão caindo

    Uma década de austeridade econômica está cobrando o preço das pontes públicas de Londres. No ano passado, vários fechamentos despertaram a ira e a preocupação de moradores frustrados. A Ponte de…

  • PM Network

    O show das trombas

    By Roberts, Caroline Nas últimas cinco décadas, a atividade comercial lentamente devastou as florestas de Surin, uma província do nordeste da Tailândia. E para o povo Kui nativo que dependia de suas exuberantes…

  • PM Network

    A nova dinâmica da liderança

    As organizações estão emergindo da pandemia com expectativas e oportunidades reformuladas—e uma visão radical de mudança. Inovadores e influenciadores de todo o mundo explicam como os líderes de…

  • PM Network

    Diagnósticos digitais

    À medida que a pandemia global continua alterando cada centímetro do cenário da saúde, os líderes de projetos de tecnologia médica estão se preparando para uma ruptura—e prontos para responder.

  • PM Network

    Orientação da mudança

    PM Network entrevista Michal Mitlanski, PMP, escritório de projetos da Dun & Bradstreet Israel e CIAL (América Latina), Tel Aviv, Israel.

Advertisement