Project Management Institute

A elite dos jatos

Ao construir jatos de próxima geração em tempo recorde, a Embraer do Brasil atingiu novos patamares

GANHADOR Projeto do Ano 2019 PMI®

DE SARAH FISTER GALE

RETRATOS DE CLAUS LEHMANN

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Da esquerda, Leandro Laia, Fernando Antonio Oliveira, Luís Carlos Affonso e Mauricio Almeida

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FOTO DE CORTESIA DA EMBRAER

Como qualquer empresa aeroespacial líder, a Embraer é motivada pela missão de voar mais alto. A empresa é classificada como uma das maiores fabricantes de jatos comerciais do mundo, mas com os motores mais novos e mais económicos que ameaçam tornar obsoletas as aeronaves mais vendidas, a Embraer lançou um projeto para lançar uma nova família de aviões — e rápido.

Iniciado em 2013, o programa E2 de US$ 1,7 bilhão foi projetado para reimaginar os E-Jets exclusivos da empresa, entregando um jato de última geração para companhias aéreas regionais em todo o mundo. Comparados aos da série E1 atual, os novos jatos teriam motores mais potentes, arquitetura de asa mais aerodinâmica, controles de voo de última geração e interiores aprimorados, com o foco em oferecer uma experiência de referência ao cliente.

Mas a equipe teve que entregar os novos jatos em tempo recorde. Os líderes de projetos da Embraer estabeleceram uma meta ambiciosa de entregar o primeiro modelo, o E190-E2, ao seu primeiro cliente em apenas cinco anos — pelo menos dois anos mais rápido que qualquer outro jato de sua geração. Se a equipe conseguisse, o programa E2 prometia ajudar as companhias aéreas regionais ao redor do mundo a aumentar suas margens com menor consumo de combustível e atração de mais passageiros. Mas havia riscos enormes para a Embraer.

“Precisava ficar pronto a tempo, porque, imagine que, com um ano de atraso, ninguém queira a geração anterior”, disse Luís Carlos Affonso, vice-presidente sênior de estratégia e inovação da Embraer, São José dos Campos, Brasil. “Por um ano, não teríamos 50 por cento de nossa receita, portanto, o impacto seria grande”.

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— Carlos Affonso, Luís, Embraer, São José dos Campos, Brasil

O tempo voa

Junho de 2013: O conselho de administração da Embraer aprova o plano de negócios da E2.

Outubro de 2014: A fabricação da primeira peça do protótipo E2 começa na fábrica da Embraer, em Évora, Portugal.

Fevereiro de 2016: O primeiro protótipo concluído é lançado em São José dos Campos, Brasil.

Maio de 2016: O E190-E2 completa seu voo de teste, com três recordes mundiais no primeiro voo.

Julho de 2016: A Embraer apresenta o E2 no Farnborough International Airshow, Inglaterra.

Fevereiro de 2018: O E2 é certificado por agências reguladoras no Brasil, Europa e Estados Unidos e se torna o primeiro jato a obter a certificação tripla em um dia.

Abril de 2018: A Embraer entrega o E2 para seu primeiro cliente. A Widerøe Airlines da Noruega conclui o primeiro voo com geração de receita do jato menos de três semanas depois.

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FOTO DE CORTESIA DA EMBRAER

Funcionários da Embraer comemoram a entrega dos jatos E190-E2.

PEDIDO PERSONALIZADO

Para construir máquinas dos sonhos, a Embraer montou uma equipe central representada por diferentes áreas da empresa e liderada pelo gerenciamento de programas. Essa forte organização matricial foi diretamente à fonte, reunindo-se com grupos de clientes antes do lançamento do programa e depois acompanhando as sessões de atualização. Por exemplo, um grupo diretor do projeto capturou mais de 1.000 sugestões, mostrando a engenheiros, mecânicos e outras partes interessadas fotos da aeronave e pedindo que dissessem à empresa o que eles gostaram e o que não gostaram em notas de papel adesivo. As concordâncias e discordâncias revelaram que os clientes queriam uma cabine mais espaçosa para melhorar a experiência do passageiro, motores mais potentes e com baixo consumo de combustível e tecnologia altamente confiável que reduzisse o tempo de manutenção. Os jatos também precisavam oferecer uma experiência de voo intuitiva que permitisse aos pilotos fazer a transição da série E1 para a E2 em um período de treinamento muito curto.

Ao perguntar a seus clientes o que eles realmente precisavam em um novo jato, a Embraer identificou mais de 18.000 requisitos que definiriam o escopo. Acima de tudo, a pesquisa mostrou que os clientes precisavam de uma aeronave que agregasse valor imediato por ser tão robusta, madura e confiável quanto seus aviões existentes desde o primeiro dia.

A Embraer respondeu com uma série de inovações. Uma mudança: incorporar sistemas de controle fly-by-wire para ajudar a reduzir o movimento da aeronave durante turbulências e, assim, melhorar o conforto do passageiro. A tecnologia ajudou a contribuir para um custo de viagem 20 por cento menor em comparação com aviões similares e custos operacionais 10 por cento menores em comparação com os aviões dos concorrentes. Ao reduzir os custos operacionais, as companhias aéreas podem explorar novos mercados, expandir o acesso a voos e reduzir os preços das passagens.

“Nós não perguntamos apenas o que seria bom desenvolvermos; perguntamos o que realmente agregaria valor aos negócios dos clientes”, afirmou Leandro Laia, vice-presidente de programas, aviação comercial da Embraer. “O valor de negócio foi a coisa mais importante. É um produto complexo com uma proposta de valor complexa”.

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— Leandro Laia, Embraer

FORNECEDORES E DEMANDA

Antes de a primeira peça ser projetada, o programa acumulava 365 pedidos, com centenas a mais antes da entrega do primeiro jato, em abril de 2018. Para garantir a aquisição dos materiais, sensores e peças a serem usados no novo design, a Embraer reforçou sua cadeia de suprimento, atraindo parceiros de todo o mundo, como Estados Unidos, Canadá, Europa, Brasil, México, Coreia do Sul, Filipinas e Índia.

A colaboração expansiva exigia uma visão clara e compartilhada. Assim, os gerentes de projeto priorizaram o caminho crítico e adotaram uma abordagem ágil para a solução de problemas. Por exemplo, quando o teste de uma determinada tecnologia de voo não correu como planejado, um líder de projeto começou a realizar reuniões semanais com o CEO do fornecedor e adicionou oficinas de recursos humanos e inovação à equipe do fornecedor. Como a Embraer havia construído uma cultura mais ágil, não havia a burocracia típica em torno da reorganização de recursos, e não era um problema trazer ajuda adicional para resolver o problema, disse Luís Carlos.

A equipe também manteve as linhas de comunicação fluindo, pressionando os fornecedores para receber atualizações constantes sobre tarefas e feedback contínuo. Essa era uma necessidade específica para construir relacionamentos e expectativas claras com novos fornecedores para manter todos na mesma página. “Adicionar uma nova cadeia de suprimento geralmente resulta em atrasos e custos excedentes nos programas”, disse Marcelo Tocci Moreira, novos programas, escritório de gerenciamento de programas e vice-diretor de programas, aviação comercial, Embraer.

Atualização instantânea

Sob praticamente qualquer aspecto, o programa E2 da Embraer apresentou números impressionantes:

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CLASSE EXECUTIVA

A entrega de jatos altamente complexos em um cronograma agressivo exigia que a equipe mantivesse o controle dos riscos. Em vez de esperar que um projeto entrasse na zona vermelha, executivos e fornecedores foram treinados para reconhecer e reagir aos indicadores de alerta precoce — e para se antecipar a problemas capazes de causar atrasos.

“Precisávamos trazer inovação, mas também tínhamos um processo de gerenciamento de projetos muito sólido para garantir que tudo fosse bem feito”, disse Fernando Antonio Oliveira, diretor de programa de E-Jets E2, aviação comercial da Embraer. “O foco era fazer as coisas acontecerem mais rapidamente, sem comprometer a beleza de um processo sólido e seguro”.

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— Fernando Antonio Oliveira, Embraer

O gerenciamento ajudou a canalizar as expectativas e definir os papéis que os executivos poderiam desempenhar na aceleração dos resultados do projeto. Por exemplo, os líderes do projeto realizavam uma reunião semanal de revisão do progresso com as partes interessadas da diretoria, onde as decisões que precisavam ser escaladas poderiam ser tratadas. E quando surgiam problemas, a equipe principal também ajudava os executivos a se concentrarem nos fatos, em vez de ficar procurando culpados.

“Estávamos dizendo que não importava se um problema era da Embraer ou de um fornecedor: todos deviam ajudar a recuperar esse pacote de trabalho”, disse Antonio.

Por exemplo, a certa altura, um equipamento eletrônico enviado dos Estados Unidos foi retido na alfândega por vários dias quando agentes encontraram cupins na caixa. A descoberta segurou o programa inteiro, mas, como os membros da equipe compartilhavam uma mentalidade de sempre se esforçar para avançar, eles tinham margem suficiente no cronograma para garantir que o projeto continuasse no caminho certo.

ATERRISSAGEM SUAVE

A Embraer entregou o primeiro jato E2 quase 20 por cento abaixo do orçamento e dois meses antes do previsto. Além disso, a equipe concluiu a entrega até 30 por cento mais rápido do que qualquer concorrente com aeronaves semelhantes. Mas as companhias aéreas não precisaram esperar a conclusão do projeto para ver o valor do jato em ação: em maio de 2016, o E2 quebrou recordes mundiais no primeiro voo em velocidade e altitude — tudo isso com controles de voo com automação total. Esses registros provaram aos clientes “que estávamos desenvolvendo um produto maduro”, disse Mauricio Almeida, vice-presidente de engenharia de aviação comercial da Embraer. “Eles poderiam ter certeza de que… teriam um avião que sucederia à família atual e apresentaria desempenho tão bom quanto os aviões atuais”.

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— Maurício Almeida, Embraer

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FOTO DE CORTESIA DA EMBRAER

A Embraer alterou os padrões para exceder as expectativas dos clientes. Os novos jatos têm apenas 25 por cento em comum com seus antecessores. A Embraer introduziu uma nova arquitetura de asas e sistemas, novos designs de motores e sensores de última geração e tecnologia de monitoramento, entre outras inovações. O novo design também resultou em uma redução significativa no consumo de combustível, emissões reduzidas de dióxido de carbono, motores mais silenciosos e aumento do espaço na cabine para os passageiros. Além disso, o treinamento de pilotos poderia ser feito em dois dias e meio — o padrão da indústria é de 25 dias.

O programa E2 também trouxe benefícios econômicos. Ele substituirá cerca de dois terços da receita da empresa e, nos próximos 15 anos, será responsável por mais de US$ 25 bilhões em exportações. Também abriu portas para novas parcerias no setor aeroespacial, incluindo um novo acordo com a Boeing. E continuará a apoiar as comunidades locais e globais da cadeia de suprimento com centenas de milhares de empregos, além de financiar a maioria das iniciativas de desenvolvimento social da Embraer. Ao longo do ciclo de vida do programa, mais de 120.000 empregos de alta renda serão criados no Brasil, além de centenas de milhares de novos empregos em toda a cadeia de suprimento global. A Embraer estima que 11 novos empregos indiretos em sua comunidade local foram criados para cada novo emprego na Embraer.

Entregar valor à constelação de partes interessadas da Embraer coloca a empresa “em um nível diferente em termos de como somos vistos como gerentes de programas e da capacidade de executar programas complexos”, disse Luís Carlos.

Leandro disse que o programa é um verdadeiro divisor de águas. “Do meu ponto de vista, o E2 é algo que realmente contribuirá para futuros programas — e para o setor de aviação em geral”. PM

Luzes, câmera, ação!

Confira vídeos dos bastidores dos finalistas do prêmio Projeto do Ano do PMI deste ano no canal do YouTube do PMI.

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