Por que grandes ideias falham e como garantir de que isso não ocorra

Ricardo Viana Vargas, PhD; Edivandro Carlos Conforto, PhD; Tahirou Assane Oumarou, EGP

Para reduzir as taxas de falhas e ser bem-sucedido ao oferecer estratégias em 2020 e além, as organizações devem superar as forças disruptivas e transformar desafios em oportunidades e vantagens. Tudo começa com o alinhamento da organização de dentro para fora e de fora para dentro. Este artigo resume como conduzir transformações e implementar estratégias projetadas seguindo os 10 princípios orientadores da Brightline. Embasado em exemplos reais, os 10 princípios orientadores explicam as regras morais e verdades básicas que sua organização precisa superar para transformar estratégias em grandes resultados.

Por que devemos nos preocupar com a lacuna na entrega da estratégia?

O ritmo acelerado das mudanças tecnológicas exige que as organizações estejam preparadas para direcionar novos mercados, mudanças inesperadas de mercado, mudanças de concorrentes e novas demandas de clientes. Todos nós ouvimos sobre o advento do aprendizado automático, da inteligência artificial (IA), do blockchain, da computação quântica e da bioengenharia. Essas tecnologias, embora disruptivas, também oferecem às organizações enormes possibilidades para melhorar seus produtos e serviços, modelos de negócios e formas de trabalhar.

Em 2017, a Brightline Initiative patrocinou um estudo de pesquisa com a Economist Intelligence Unit (EIU) para entender por que muitas organizações não conseguem transformar estratégias em resultados. Realizamos uma pesquisa global em diversos setores com 500 executivos seniores de empresas com receitas anuais de 1 bilhão de dólares ou mais. Os resultados mostram que, entre os principais fatores, as organizações enfrentam desafios para lidar com atitudes culturais, recursos mal gerenciados e agilidade insuficiente (The Economist Intelligence Unit, 2017).

Como resultado, muitas organizações não conseguem atingir suas metas estratégicas, como confirmado por uma recente pesquisa global conduzida pela Harvard Business Review Analytic Services (HBR-AS). Entrevistamos mais de 1.600 executivos em todo o mundo e descobrimos que apenas um quinto das organizações atinge 80% ou mais de suas metas estratégicas (Harvard Business Review Analytic Services, 2019). O restante não consegue transformar suas metas estratégicas em realidade.

O crescimento sustentável depende da entrega das estratégias certas da maneira certa. No entanto, isto é algo que as organizações parecem não estar preparadas para fazer. A transformação é, muitas vezes, um passo necessário no caminho para o crescimento sustentável e a realização de metas estratégicas de longo prazo. Apesar disso, uma parcela impressionante de 70% das transformações em grande escala não consegue atingir suas metas (Tabrizi et al., 2019). Esse é um dos muitos motivos para acreditar que precisamos mudar a maneira como as organizações se transformam.

Os 10 princípios orientadores da Brightline para fechar a lacuna da estratégia

Nosso trabalho na Brightline Initiative está examinando as interseções entre estratégia, implementação e transformação, além de eliminar as lacunas. Nossa pesquisa sugere que os líderes de negócios precisam seguir 10 princípios orientadores para serem mais eficazes na execução de suas estratégias.

1) Reconhecer que a entrega da estratégia é tão importante quanto o design dela

Esteja ciente de que a entrega da estratégia não acontece automaticamente assim que é projetada! Como líderes seniores, investimos recursos substanciais, tempo de criação e energia para projetar a estratégia certa. Agora, precisamos dar a mesma prioridade e atenção à entrega, antes de avançarmos para outra etapa. Na Steelcase, fabricante líder de móveis para escritórios, hospitais e salas de aula com sede nos Estados Unidos, os líderes seniores incentivam os funcionários a defenderem novas estratégias e a estarem em sintonia por meio do engajamento da equipe. Eles têm o que chamam de "União estratégica", onde mais de 3.000 funcionários em todo o mundo participam de uma conversa ininterrupta ao vivo de 32 horas sobre estratégia, fazendo perguntas de sondagem e oferecendo opiniões. "Com a União estratégica, conseguimos ajudar os funcionários a ver como seu papel apoia essa estratégia de crescimento mais ampla", diz Thomas Cook, diretor de estratégia e desenvolvimento corporativo.

2) Aceitar que você é responsável por entregar a estratégia que projetou

Não subestime a entropia! De acordo com a pesquisa global da Economist Intelligence Unit de 2017 em parceria com a Brightline Initiative, 63% dos executivos seniores admitem que a implementação não é vista como uma tarefa estratégica, apesar de sua contribuição crucial para o sucesso organizacional. Depois de definir e comunicar claramente a estratégia, sua responsabilidade muda para supervisionar o progresso de implementação, de modo que a estratégia forneça resultados e alcance suas metas. Como líderes, somos responsáveis por abordar proativamente as lacunas e os desafios emergentes que podem afetar a entrega. Sem essa disciplina, rigor e cuidado, sua estratégia tem pouca chance de sucesso.

3) Dedicar e mobilizar os recursos certos

Inspire e atribua as pessoas certas para realizar o trabalho! Precisamos equilibrar de maneira ativa e constante o modo como "administramos e mudamos os negócios", selecionando e protegendo os recursos certos para cada tarefa: iniciativas para administrar e mudar os negócios têm necessidades diferentes. O maior desafio enfrentado pela Sightsavers, uma organização não governamental internacional dedicada a tratar e prevenir a cegueira evitável, foi unir uma grande variedade de parceiros com diferentes requisitos e interesses. "A parte inicial do trabalho tentava reunir esses parceiros", diz Simon Bush, diretor de doenças tropicais negligenciadas da Sightsavers.

4) Aproveitar informações sobre clientes e concorrentes

Não se esqueça de olhar para fora da organização! A Archer Daniels Midland (ADM), uma empresa agropecuária gigante centenária, que enfrenta a concorrência global, com margens de lucro menores e um consumidor mais experiente em tecnologia, iniciou sua transformação monitorando o cenário para ver as principais tendências do mercado e reunindo novas informações de seu ambiente de negócios em constante evolução. A vantagem no mercado flui para aqueles que se destacam ao conseguirem informações de um ambiente de negócios em constante mudança e na resposta rápida com as decisões e os ajustes corretos para o design e a entrega da estratégia.

5) Ser ousado, manter o foco e a simplicidade

Seja ousado, mas mantenha a estratégia simples. Muitos dos desafios de entrega que você enfrentará serão complexos e interdependentes. Você precisa de pessoas que possam chegar ao centro de uma oportunidade ou ameaça, entender os motivadores, fornecer as informações e tomar as medidas necessárias da maneira que você precisa. Para manter o foco e as coisas o mais simples possível, a Steelcase divide suas iniciativas estratégicas em três categorias principais: "Agora", projetos que estão mais próximos do negócio principal e exigem atenção imediata; "Próximo", iniciativas de curto prazo que exigem a criação de capacidades internas para responder a mudanças de mercado; e "Longe", investimentos em projetos futuros com validade de longo prazo.

6) Promover o engajamento da equipe e a cooperação eficaz entre empresas

Cuidado com a "média gestão congelada" (frozen middle)! Precisamos governar por meio da transparência para gerar confiança e melhorar a cooperação entre empresas na entrega. Uma recente pesquisa global realizada pela Harvard Business Review Analytic Services, patrocinada pela Brightline, indicou que as principais organizações colocam um foco fundamental na agilidade organizacional e posicionam as equipes multifuncionais na vanguarda quando necessário. Na Saudi Telecom Company (STC), uma empresa de telecomunicações sediada na Arábia Saudita, o segredo para uma implementação de estratégia bem-sucedida é um alicerce sólido baseado em três elementos: adesão executiva, responsabilidade das partes interessadas e comunicação clara. "É muito importante que diferentes grupos compreendam o papel que desempenham na concretização da visão da empresa e como o seu papel contribui para o maior sucesso da empresa", afirma Mohammed Alabbadi, vice-presidente de execução de estratégias e desempenho corporativo da STC.

7) Demonstrar viés em relação à tomada de decisões e ter domínio das decisões que você toma

Siga suas decisões até a entrega! Comprometa-se a tomar decisões estratégicas rapidamente. Mova-se rapidamente para corrigir o rumo, redefinir as prioridades e remover os obstáculos. Aceite que você provavelmente não terá todas as informações que deseja, e acredite naqueles em quem você pode confiar para fornecer informações seguras o suficiente para permitir decisões ponderadas. Por exemplo, Gail McGovern, presidente e CEO da Cruz Vermelha Americana, diz que quando o furacão Harvey inundou Houston no verão de 2017, a Cruz Vermelha colocou seus voluntários em caminhões-caçamba de Houston para ajudar a transportas os residentes até os abrigos. "Isso era um risco", diz ela. "Mas quando se está no ramo de catástrofes, é necessário poder tomar decisões rápidas constantemente".

8) Verificar as iniciativas em andamento antes de se comprometer com as novas

Resista à tentação de declarar a vitória muito cedo! Com os recursos corretos de governança, liderança, rigor e geração de relatórios vigentes, você pode avaliar regularmente seu portfólio de iniciativas estratégicas. Adicione novas iniciativas em resposta a novas oportunidades, mas primeiro certifique-se de que compreende tanto o portfólio existente como a capacidade da sua organização para entregar mudanças. Resolva ativamente todos as questões que descobrir. De acordo com o relatório de pesquisa da HBR-AS, a barreira número um para a implementação bem-sucedida da estratégia é "ter muitas iniciativas estratégicas e/ou de mudança de uma só vez" (Harvard Business Review Analytic Services, 2019, p. 11).

9) Desenvolver planos robustos, mas permitir erros – falhe logo para aprender rápido

O planejamento e a preparação adequados evitam o baixo desempenho! Capacite as equipes de entrega do programa para experimentar e aprender em um ambiente onde seja seguro falhar rapidamente. Discuta os desafios abertamente e ajuste o plano conforme necessário para ser bem-sucedido. Na ING Group, uma corporação holandesa multinacional de serviços bancários e financeiros com sede em Amsterdã, os funcionários são treinados para adaptar a execução, mas até mesmo os funcionários mais bem treinados podem enfrentar falhas. "Alguns dos nossos programas mais ambiciosos precisaram mudar de rumo nos últimos 12 meses", afirma Dina Matta, chefe do escritório de transformação global. Ela acrescenta: "Em extremo caso, talvez seja necessário interromper um programa e fazer outra coisa ou mudar fundamentalmente nossa abordagem para a execução da estratégia".

10) Comemorar o sucesso e reconhecer aqueles que fizeram um bom trabalho

Inspirar as pessoas faz parte do seu trabalho! Como líder, você tem que conduzir a responsabilidade e o foco na entrega, mas você também precisa motivar aqueles que fazem o trabalho. Reconheça generosamente e publicamente aqueles que demonstram os comportamentos de liderança e as capacidades de entrega do programa, que fazem a estratégia ser bem-sucedida e peça que compartilhem suas experiências. "Sempre reconhecemos quando alguém escreve um documento que é publicado no The Lancet", diz Carlos Carrazana, vicepresidente executivo e diretor de operações da Save the Children, a principal organização humanitária para crianças. "Mas agora estamos realmente reconhecendo a capacidade de nossos funcionários de ajudar outras pessoas dentro da organização a lidar com a mudança de uma forma positiva".

Siga estes 10 princípios orientadores que ajudam você a conduzir transformações e implementar estratégias em sua organização.

Ricardo Viana Vargas

Dr. Ricardo Viana Vargas é especialista em gerenciamento de projetos e implementação de estratégias. Nos últimos 20 anos, ele foi responsável por mais de 80 grandes projetos de transformação em vários países, abrangendo um portfólio de investimentos de mais de 20 bilhões de dólares. Atualmente, ele é diretor executivo da Brightline Initiative, uma coalizão de organizações globais líderes nos setores de negócios, governo e sem fins lucrativos. Ricardo é cofundador e parceiro de gerenciamento do PMOtto.ai, um assistente virtual de ponta que usa chatbots, aprendizado de máquina e inteligência artificial para ajudar os usuários a interagir com o software de gerenciamento de projetos. De 2012 a 2016, Ricardo foi o diretor global do grupo de infraestrutura e gestão de projetos com o Escritório das Nações Unidas para Serviços de Projetos. Ele escreveu 15 livros sobre gerenciamento de projetos e apresenta o podcast Five Minutes Project Management, um dos podcasts mais relevantes do campo com mais de quatro milhões de reproduções e downloads.

Edivandro Carlos Conforto

Dr. Edivandro Conforto é um especialista reconhecido mundialmente em agilidade organizacional, inovação e transformação ágeis, abordagens de gerenciamento híbridas e implementação de estratégia. Ele tem mais de 10 anos de experiência e trabalhou com organizações em diferentes setores. Atualmente, ele é chefe de pesquisa de estratégia na Brightline Initiative, supervisionando o pilar de benefícios da liderança de pensamento e prática por meio de pesquisa acadêmica e profissional. Edivandro é um palestrante requisitado para conferências, workshops e eventos corporativos. De 2013 a 2015, o Dr. Conforto foi um associado de pesquisa do MIT (CEPE), corresponsável por projetos globais em agilidade organizacional, inovação ágil e gerenciamento de programas. Suas ideias foram publicadas em revistas de prestígio como MIT Sloan Management Review, Project Management Journal®, International Journal of Project Management e Journal of Engineering and Technology Management. Edivandro também contribuiu com sete livros. Seus artigos e pesquisas são citados em todo o mundo e estão entre os mais relevantes no campo da agilidade organizacional e dos modelos de gerenciamento híbridos.

Tahirou Assane Oumarou

Tahirou Assane Oumarou tem mais de 15 anos de experiência em funções de liderança, engenharia civil e gerenciamento de projetos. Como diretor de operações da Brightline Initiative, Tahirou supervisiona as atividades sob os três pilares de benefícios de liderança de pensamento e prática, rede de relacionamentos e criação de capacidades. De 2013 a 2017, Tahirou trabalhou como diretor adjunto de infraestrutura e grupo de gerenciamento de projetos no Escritório das Nações Unidas para Serviços de Projetos, apoiando a implementação bem-sucedida de projetos de construção de paz, humanitários e de desenvolvimento em todo o mundo. Antes das Nações Unidas, Tahirou era gerente de projeto sênior do Ministério dos Transportes de Ontário, em que forneceu recursos técnicos e expertise para garantir a excelência na entrega de projetos complexos de estradas com equipes multidisciplinares.

A Brightline™ é uma iniciativa do Project Management Institute (PMI) com as principais organizações globais dedicadas a ajudar os executivos a preencher a lacuna cara e improdutiva entre o design e a entrega da estratégia.

Referências

Harvard Business Review Analytic Services. (2019). Testar os limites organizacionais para melhorar a execução da estratégia. Disponibilizado em https://www.brightline.org/resources/testing-organizational-boundaries-to-improve-strategy-execution/

Tabrizi, B., Lam, E., Girard, K. e Irvin, V. (13 de março de 2019). A transformação digital não se trata de tecnologia. Disponível em https://hbr.org/2019/03/digital-transformation-is-not-about-technology

The Economist Intelligence Unit. (2017). Fechando a lacuna: projetar e entregar uma estratégia que funcione. Disponível em https://www.brightline.org/resources/eiu-report/

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