Project Management Institute

Movimento urbano

Começou a corrida para as cidades atualizarem seus sistemas de transporte

DE AMY WILKINSON

RETRATOS DE LUIS CERDEIRA

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ISTOCKPHOTO

Angela Rivada, Remourban, Agência de Inovação e Desenvolvimento Econômico, Cidade de Valladolid, Valladolid, Espanha

O transporte moderno se parece com um estádio lotado. À medida que as tecnologias de ponta passam do campo da ficção científica para o mercado e as partes interessadas clamam cada vez mais por alternativas mais sustentáveis, governos e empresas privadas estão correndo para desenvolver soluções. Veículos autônomos, drones, mobilidade compartilhada e veículos elétricos estão conduzindo projetos de mobilidade urbana de última geração, cuja escala não é vista desde o século XIX, de acordo com um relatório da McKinsey de 2019.

As apostas são altas: as receitas globais associadas exclusivamente a veículos autônomos em áreas urbanas podem chegar a US$ 1,6 trilhão por ano até 2030, segundo a McKinsey. E, nos Estados Unidos, os benefícios públicos — incluindo menos congestionamentos, menos acidentes e imóveis liberados nas áreas urbanas — podem atingir US$ 350 milhões já em 2022. E com pesquisas indicando que 60 por cento da população mundial viverá nas cidades até 2030 (acima dos 50 por cento em 2015), as apostas só aumentarão.

Fonte: McKinsey

Na corrida para desenvolver e implantar novas soluções antes da concorrência, os gerentes de projeto devem equilibrar velocidade e risco. Por exemplo, depois de registrar mais de 16,1 milhões de quilômetros durante um piloto de 10 meses de seu veículo autônomo em vias públicas, a Waymo, proveniente do Google, anunciou em dezembro que lançaria o serviço comercialmente.

Mas a corrida nem de longe se limita ao setor privado. Muitos governos locais, geralmente em conjunto com organizações privadas e, às vezes, internacionais, estão lançando projetos para re-equipar ou aprimorar o transporte público, almejando um uso mais sustentável da energia e protegendo seus investimentos em tecnologia.

No final do ano passado, a capital chilena, Santiago, lançou 100 novos ônibus elétricos como parte de uma parceria público-privada (PPP) com a concessionária europeia Enel (que forneceu o financiamento de US$ 33,4 milhões do projeto) e a fabricante chinesa de veículos BYD (que forneceu os ônibus). O projeto representa um ponto de partida para as duas empresas, que planejam expandir seu alcance em pelo menos três outros países da América Latina. Enquanto isso, o Chile pretende aumentar em dez vezes o número de veículos elétricos em suas ruas até 2022, com planos de transporte público totalmente elétrico até 2050.

Enquanto isso, o Consórcio Canadense de Pesquisa e Inovação em Trânsito Urbano lançou no ano passado uma PPP de US$ 40 milhões para criar um ecossistema de mobilidade inteligente de baixa emissão de carbono, incluindo ônibus elétricos de baixa velocidade, nas cidades canadenses. E, no Reino Unido, a Transport for London investiu US$ 15 milhões na compra de 20 ônibus movidos a hidrogênio, programados para chegar às ruas em 2020 como parte do esforço da cidade para alcançar o status de emissão zero.

Os gerentes de projeto encarregados de executar essas novas iniciativas, porém, são rápidos em ressaltar que a integração de novas tecnologias em sistemas antigos pode ser uma tarefa complexa.

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E para que qualquer iniciativa de transporte seja um verdadeiro sucesso, os envolvidos “precisam de uma visão de longo prazo dos benefícios”, afirmou Graham Currie, PhD, diretor do Public Transport Research Group e presidente de transporte público da Monash University, Clayton, Austrália.

BARREIRAS BUROCRÁTICAS

Embora a busca por modelos modernos e sustentáveis de transporte urbano possa ajudar a aliviar os problemas de mobilidade de muitas cidades, também pode criar um novo problema ao mesmo tempo: uma carência no financiamento de projetos de infraestrutura e iniciativas de transporte. De fato, o déficit global no financiamento de infraestrutura rodoviária poderá atingir mais de US$ 7,5 trilhões até 2040, de acordo com o Global Investment Hub. Esses problemas podem ter um impacto especialmente grande nos orçamentos de projetos em cidades de pequeno e médio portes.

“O trânsito em megacidades de alta densidade se paga com tarifas e incorporação de propriedades”, disse Graham. “No mundo todo, cerca de 20 por cento dos custos de transporte público são pagos por subsídios do governo — e muito mais em alguns lugares como os Estados Unidos e a Austrália”.

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— Graham Currie, PhD, Monash University, Clayton, Austrália

As PPPs estão rapidamente se tornando uma maneira popular de os governos financiarem e executarem seus projetos de transporte. Em junho, por exemplo, uma PPP entre a National Highways Authority of India (NHAI) e a Welspun Enterprises para atualizar a via expressa Délhi-Meerut atingiu o ponto médio da execução do projeto. A empresa do setor privado deverá supervisionar a via expressa por 15 anos antes de transferi-la para a NHAI.

Mas, sempre com um grande número de partes interessadas, os projetos de mobilidade podem ficar atolados em aprovações e burocracias, disse Mitch Ewan, gerente de programa de sistemas de hidrogênio, Instituto de Energia Natural do Havaí da Universidade do Havaí, Oahu, Havaí, EUA. Mitch está gerenciando um projeto de US$ 5 milhões para desenvolver um ônibus circular movido a hidrogênio e uma infraestrutura de produção e abastecimento de hidrogênio, com financiamento do projeto do Departamento de Energia dos EUA, do Estado do Havaí e do Escritório de Pesquisa Naval dos EUA.

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À ESQUERDA, FOTO DE CORTESIA DA BYD. À DIREITA, FOTO DE CORTESIA DA WAYMO

À esquerda, novos ônibus elétricos em Santiago, Chile. À esquerda, um veículo autônomo da Waymo

“Fazemos parte do estado e precisamos seguir as regras de compras”, disse ele. “Mas simplesmente existem atrasos inerentes ao projeto, incorporados em todo o processo. Não são dias ou semanas: pode levar meses ou anos para que as coisas passem pela burocracia. É frustrante, mas precisamos aceitar que isso faz parte do processo”.

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— Mitch Ewan, Instituto de Energia Natural do Havaí da Universidade do Havaí, Oahu, Havaí, EUA

Quando se trata de superar esses obstáculos e contratempos, Mitch descobriu que instruir as partes interessadas funciona melhor do que perseguir os membros da equipe para concluir tarefas. “Se você adotar um comportamento negativo, as pessoas criarão negatividade”, disse ele. Segundo ele, é mais eficaz os gerentes de projeto liderarem com dados de alta qualidade sobre por que um determinado estágio precisa ser esclarecido ou o impacto que um revés pode ter na estrutura de detalhamento do trabalho.

ESTRUTURA RADIAL

O transporte público não pode ser construído no vácuo. É uma lição que Angela Rivada, gerente de projetos, Remourban, Agência de Inovação e Desenvolvimento Econômico da cidade de Valladolid, Valladolid, Espanha, aprendeu ao gerenciar um projeto para transformar as rotas de ônibus tradicionais da cidade em uma linha eletrificada.

A ambiciosa iniciativa, concluída no ano passado, nunca teve a intenção de se restringir aos limites da cidade: O patrocinador do projeto, Remourban (abreviação em inglês de Modelo de Regeneração para Acelerar a Transformação Urbana Inteligente) encarregou a equipe do projeto de estabelecer e rastrear métricas por dois anos após o lançamento da linha eletrificada, a fim de estabelecer também um modelo que pudesse ser facilmente replicado em outros áreas urbanas.

A frota de cinco ônibus e dois pantógrafos (unidades de carga) foi comprada por US$ 1,4 milhão, com a empresa pública de ônibus Auvasa encarregando-se de todas as tarefas técnicas, incluindo a infraestrutura de carga. Um dos maiores desafios do projeto, disse Angela, foi adaptar essa solução pronta às necessidades exclusivas da cidade.

“Embora os ônibus possam ser o impulso inicial para 100% da rota no modo totalmente elétrico, exploramos um equilíbrio melhor, levando em consideração variáveis como a duração da bateria e parâmetros económicos”, disse ela.

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— Angela Rivada, Remourban, Agência de Inovação e Desenvolvimento Econômico, Cidade de Valladolid, Valladolid, Espanha

A cidade testou três modos (híbrido, parcialmente elétrico e totalmente elétrico) antes que a equipe técnica recomendasse que os ónibus funcionassem plenamente com eletricidade assim que cruzassem o centro da cidade. “Isso cobre cerca de 70 por cento da linha nesse modo”, disse Angela, que maximiza a economia de energia no centro urbano mais denso, preservando a bateria do ónibus quando estiver mais longe.

A acomodação das unidades de carga exigiu que a equipe do projeto alterasse as rotas de ônibus existentes, movendo algumas paradas um pouco para permitir amplo espaço para as possibilidades de manobra do veículo. Embora esse ajuste de infraestrutura não tenha um alto preço, exige um nível de comunicação para que os deslocamentos regulares dos moradores não sejam interrompidos, disse ela.

Durante a fase piloto do projeto, cada ônibus também era monitorado por meio de um dispositivo de bordo que registra e transmite métricas, incluindo consumo de energia, aquecimento, energia regenerada em frenagem e nível da bateria, além de sensores externos para medir temperatura, umidade e óxido de nitrogénio.

Essas não eram as únicas métricas que a equipe do projeto queria controlar: juntamente com o lançamento técnico, a equipe do projeto desenvolveu uma estratégia de comunicação robusta para deixar os moradores empolgados com os deslocamentos novos. Isso abrangeu uma apresentação oficial do prefeito da cidade, programação de televisão local e um tom consistente em todas as mensagens, para transmitir que os Escritório de Veículos Elétricos gostaria de receber feedback.

Essa abordagem orquestrada valeu a pena, e mais de 2,1 milhões de pessoas usaram a nova linha elétrica em 2018. No geral, o projeto ajudou a cidade a reduzir as emissões em 80 por cento e a alcançar 50 por cento de economia de energia, disse Angela. E em janeiro o conselho da cidade concordou em comprar e integrar mais seis ônibus elétricos.

Mas nem todos os projetos seguem de acordo com o plano. Quando a erupção do vulcão Kilauea em 2014 ameaçou a estação de abastecimento de combustível na qual a equipe de projeto de Mitch estava trabalhando, a mudança não tinha mistério. Mas descobrir para onde ir se mostrou muito mais desafiador: a equipe passou meses avaliando diferentes locais do projeto antes de procurar garantir uma área em frente a uma escola. Mas quando os pais das escolas protestaram por questões de segurança devido a uma possível explosão, a equipe do projeto foi forçada a seguir em frente, disse Mitch, embora ele afirme que os postos de abastecimento de hidrogénio sejam mais seguros que os postos de gasolina.

A equipe poderia economizar tempo ao interagir com as partes interessadas locais mais cedo, antes de investir recursos em uma longa fase de projeto, disse ele. Mas essa lição aprendida terá que informar projetos futuros. Na iniciativa atual, a equipe optou por se mudar para um terceiro local em vez de travar uma longa batalha pública. O projeto de nove anos está previsto para terminar este ano, quando a equipe entregará dois ônibus circulares de 19 passageiros e um ônibus de 29 passageiros para o condado do Havaí (movidos a hidrogénio) para serem operado pelos serviços da Hele-On Bus. PM

Uma volta ao mundo em cinco projetos de mobilidade urbana

Esforços para aliviar dores de cabeça no transporte com frotas sustentáveis estão se espalhando por todo o mundo.

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NO SENTIDO HORÀRIO, A PARTIR DO CANTO SUPERIOR ESQUERDO, FOTOS DE CORTESIA DE: KITTY HAWK, BLUE DART EXPRESS, AVSHUTTLEUTAH.COM E AMSTERDAM RAI

Táxis aéreos na Nova Zelândia

No final de 2018, a empresa de aviação Kitty Hawk (apoiada pelo cofundador do Google, Larry Page) lançou um projeto com a Air New Zealand para construir o primeiro serviço de táxi aéreo autônomo do mundo. A iniciativa baseada na Nova Zelândia vem na esteira de um piloto de 2017 para testar seu novo táxi aéreo autônomo, chamado Cora, que pode voar a até 177 quilômetros por hora com um alcance de cerca de 100 quilômetros.

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Veículos elétricos na Índia

Como parte de sua tentativa de tornar Délhi a “capital dos veículos elétricos da Índia”, o governo local revelou em junho que está executando um projeto piloto no qual até 1.000 veículos elétricos serão implantados para entregar pedidos on-line nos próximos 12 meses. Uma série de players do setor está participando, incluindo Amazon, Blue Dart Express, Delta Group e Tata Power.

Hidrogénio como combustível no Canadá

Em março, o projeto de células de combustível com membrana de eletrólito de polímero de baixo custo, de desempenho e durabilidade altos, entrou em sua primeira fase. A iniciativa de US$ 1,4 milhão é uma parceria entre o Consórcio Canadense de Pesquisa e Inovação em Trânsito Urbano, a Universidade de Waterloo, a Universidade de Ontário Ocidental e grupos privados e governamentais para desenvolver a tecnologia de células de combustível de hidrogénio para uso em automóveis e trânsito.

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Drones na Holanda

Na Amsterdam Drone Week deste ano, em Amsterdã, Holanda, a cidade anunciou que lançaria um projeto para investigar a viabilidade da criação de um corredor de drones: uma pista dedicada onde veículos aéreos não tripulados poderiam voar sem interferir em outras aeronaves. Além das entregas típicas de bens de consumo, as autoridades da cidade estão curiosas para saber se os drones podem ser usados para necessidades mais críticas de transporte, como entrega de sangue ou órgãos.

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Ônibus autônomos nos Estados Unidos

Para ajudar a resolver problemas de “primeira e última milhas” (ou seja, de acesso de e para aos pontos de parada) de seu sistema de transporte público, o Departamento de Transportes de Utah está testando um sistema de transporte autônomo com um projeto de US$ 800.000. O veículo autônomo, que comporta até 12 passageiros e atinge velocidades de apenas 24 quilômetros por hora, começou a percorrer o estado em abril, oferecendo passeios gratuitos para obter feedback do público. Um “anfitrião de transporte” está sempre a bordo para garantir a segurança dos passageiros e tomar medidas em caso de emergência.

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