Project Management Institute

Transferência de poder

As equipes de projeto da Alemanha enfrentam um momento de definição em uma UE pós-Brexit

DE NOVID PARSI

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FOTO DE PAUL ZINKEN/PICTURE ALLIANCE VIA GETTY IMAGES

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FOTO DE MOHSSEN ASSANIMOGHADDAM/PICTURE ALLIANCE VIA GETTY IMAGES

Veículos Mercedes-Benz aguardam a entrega em Ahlhorn, Alemanha.

ANSIEDADE E OPORTUNIDADE TÊM DOMINADO O AMBIENTE DE PROJETOS DA ALEMANHA.

Com todos os olhos voltados para as repercussões pós-Brexit, a incerteza política e econômica ameaça desanimar a possibilidade de a Alemanha apostar tudo em sua função de locomotiva da União Europeia (UE).

A taxa de crescimento do PIB deste ano deverá ficar em apenas 0,8 por cento, abaixo das projeções anteriores de 1,9 por cento. Enquanto isso, as previsões para 2020 de um crescimento de 1,7 por cento significariam três anos seguidos de índices abaixo de 2,0 por cento. E, pela primeira vez desde 2005, a liderança do governo é incerta. O fato de a chanceler Angela Merkel — vista por muitos como a líder real da UE — não querer a reeleição espalhou sementes de dúvida sobre o impacto que seus possíveis sucessores terão nos projetos.

Independentemente de como ficar — e se ficar — o acordo sobre o Brexit, a Alemanha enfrenta uma série de consequências variadas. A economia da Alemanha está intimamente ligada à da Grã-Bretanha. As empresas alemãs têm investimentos no valor de € 120 bilhões no Reino Unido. Como economia voltada para a exportação, a Alemanha fornece uma ampla variedade de produtos industriais para a Grã-Bretanha, e o comércio bilateral de bens e serviços vale cerca de € 175 bilhões por ano.

“A maioria das indústrias alemãs de bens e serviços voltadas para a exportação será impactada pelo Brexit”, disse Thomas Zimmermann, PMI-ACP, PMP, gerente global de portfólio de projetos, Karl Storz SE & Co. KG, fabricante de dispositivos médicos, Tuttlingen, Alemanha. “Várias empresas alemãs esperam que seus negócios com o Reino Unido se deteriorem em 2019 e depois.”

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— Thomas Zimmermann, PMI-ACP, PMP, Karl Storz GmbH and Co. KG,

Os centros de produção da Alemanha têm diante de si até € 3,3 bilhões em tarifas impostas pelo Reino Unido se nenhum acordo de livre comércio for alcançado, cortando pela metade as exportações do país para o Reino Unido e diminuindo ainda mais os ganhos económicos, segundo o Instituto Económico Alemão. A indústria automobilística será particularmente afetada. Quatorze por cento de todos os veículos fabricados na Alemanha são vendidos ao Reino Unido, e uma transformação global da indústria está acelerando ainda mais a necessidade de inovar.

A Alemanha exporta quase 800.000 carros por ano para a Grã-Bretanha, e um Brexit sem acordo pode comprometer cerca de 100.000 empregos em uma indústria que já está em queda. No ano passado, as montadoras alemãs enfrentaram uma redução de demanda da China, cuja economia em queda resultou em um menor apetite por todos os produtos alemães. E o setor ainda precisa encontrar uma solução para a ameaça de tecnologias emergentes, a automação, mesmo que esses riscos ameacem, segundo estimativas, metade de todos os empregos no setor automotivo do país.

REAÇÃO EM CADEIA

Nem tudo é melancolia e desespero. Algumas empresas alemãs têm adotado uma abordagem proativa para capitalizar a incerteza. Por exemplo, em antecipação ao Brexit, a organização global de biotecnologia CSL Behring executou no ano passado projetos para proteger sua cadeia de suprimento. Os projetos garantiram que quaisquer suprimentos que a CSL Behring obtivesse da Grã-Bretanha, como equipamentos de fabricação ou produtos químicos, pudessem ser adquiridos em outras partes da UE.

“Começamos a resolver o problema mais cedo. Não estávamos esperando o Brexit”, disse Dirk Nadler, PMP, gerente sênior de suporte à entrega de projetos, CSL Behring, Marburg, Alemanha.

Sua empresa não depende muito de suprimentos britânicos, mas as organizações de biotecnologia e farmacêuticas que fornecem ou fabricam a maioria de seus suprimentos na Grã-Bretanha enfrentarão maiores desafios, disse Dirk. “Eles são altamente afetados pelo Brexit porque se trata de um mercado altamente regulamentado. Você não pode simplesmente fabricar materiais no Reino Unido hoje e depois construir uma fábrica em algum lugar da UE em um ano ou dois, não é tão fácil assim.” Essas fábricas custam milhões de euros para serem construídas e precisam passar por um extenso processo de aprovação regulatória antes de poderem operar, o que pode levar de cinco a dez anos, disse ele.

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O aeroporto de Frankfurt, na Alemanha, uma cidade que está presenciando um crescimento nos negócios devido ao Brexit

A extensão dos suprimentos de uma organização do Reino Unido determinará a extensão do efeito do Brexit em suas operações”, disse Dirk.

Não são apenas os bens que atravessam fronteiras, as pessoas também. Muitos projetos alemães empregam membros da equipe da Grã-Bretanha; muitos alemães trabalham para empresas britânicas. Em um mundo pós-Brexit, esse fluxo será mais limitado. “A livre circulação não está mais garantida”, disse Dirk. “Deslocar pessoas do Reino Unido para a UE e vice-versa era muito fácil até agora: ficará mais difícil conseguir as pessoas necessárias para os projetos.”

Após o Brexit, as regulamentações de viagem entre a Grã-Bretanha e os estados da UE mudarão. Como resultado, os gerentes de projeto terão que atribuir tarefas estrategicamente e avaliar como a disponibilidade de talentos pode afetar os cronogramas, disse Dirk.

“Quanto tempo posso ficar lá? Tenho permissão para trabalhar lá? Isso afetará o cronograma e o orçamento do meu projeto?” Esses são os tipos de perguntas que Dirk e outros gerentes de projetos alemães que trabalham na Grã-Bretanha agora terão que responder.

O LADO BOM DO BREXIT

A indústria de serviços financeiros da Alemanha, por outro lado, está preparada para tirar proveito do Brexit. Embora o Reino Unido tenha sido o centro financeiro mais desenvolvido da UE, isso pode mudar uma vez que os bancos britânicos provavelmente terão o acesso mais difícil e ficarão mais caros para os clientes comerciais da UE.

Algumas empresas financeiras do Reino Unido já estão querendo se mudar para a UE e, principalmente, para a Alemanha. Desde a votação do Brexit, em 2016, mais de 45 instituições financeiras lançaram projetos para estabelecer ou reforçar sua presença na Alemanha, principalmente em Frankfurt, e o número de organizações britânicas que se estabeleceram na Alemanha aumentou 34 por cento. No ano passado, 168 organizações britânicas se mudaram para a Alemanha — quase metade delas por causa do Brexit, de acordo com a agência de desenvolvimento económico Germany Trade & Invest.

Por exemplo, a gigante financeira UBS transferiu mais de € 32 bilhões em ativos de seus negócios no Reino Unido para a Alemanha. Espera-se que 10.000 empregos da área financeira sejam realocados de Londres para o centro financeiro de Frankfurt até 2024, para que bancos e companhias de seguros possam manter seus direitos de continuar fazendo negócios na UE — provavelmente com uma forte ênfase em iniciativas de tecnologia de escala.

EM BUSCA DE INFLUÊNCIA

As organizações na Alemanha devem se adaptar em uma UE pós-Brexit. Veja como duas indústrias estão se preparando para o impacto.

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ACIMA, FOTO DE ARNE DEDERT/PICTURE ALLIANCE VIA GETTY IMAGES. ABAIXO, FOTO DE CORTESIA DA EOS

Estação de sensores para uma rede de medição da qualidade do ar, em Darmstadt, Alemanha

TECH TITAN

Como um dos países de tecnologia que mais cresce na Europa, a Alemanha está investindo mais para preencher suas lacunas digitais e modernizar sua economia. No ano passado, anunciou que iria dedicar € 3 bilhões a projetos de inteligência artificial e € 2,4 bilhões a projetos de infraestrutura digital.

E isso vai impulsionar a demanda por gerentes de projetos, disse Thomas Zimmermann, PMI-ACP, PMP, gerente global de portfólio de projetos, Karl Storz SE & Co. KG, Tuttlingen, Alemanha. “Estamos tendo uma demanda crescente por gerentes de projeto na maioria dos setores da indústria”, disse ele. Grande parte dessa demanda, observou, deriva da inovação em digitalização, gerenciamento de big data e segurança cibernética. “Tudo isso impulsiona novos projetos.”

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Um local de produção de impressão 3D em Maisach, Alemanha

MUDANÇA DE RITMO

A indústria automobilística da Alemanha pode ser a maior da UE, mas ainda precisa encontrar uma resposta para a transformação tecnológica do setor. O projeto NextGenAM é um passo na direção certa. Lançado em 2017 e concluído este ano, o projeto desenvolveu uma linha de produção digital totalmente automatizada para fabricação aditiva em série. O projeto conjunto da Daimler, EOS e Premium AEROTEC serve como prova de conceito para impressão em 3D na indústria automobilística. O principal desafio deste projeto e de outras plantas de produção aditiva totalmente automatizadas é a comunicação: As equipes precisavam garantir interface e engajamento contínuos entre todos os robôs e outras máquinas.

Thomas Zimmermann, PMI-ACP, PMP

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O banco UBS e os edifícios da casa de ópera em Frankfurt, Alemanha

“O cenário de mudanças está trazendo algumas oportunidades”, disse Massimo Rovitti, PMP, gerente de projetos da Wirecard AG, um processador de pagamentos global, Munique, Alemanha. “O medo de não ter acesso total ao mercado europeu é um forte impulso para as empresas financeiras localizadas no Reino Unido que têm clientes e negócios no exterior reconsiderarem sua localização.”

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— Massimo Rovitti, PMP, Wirecard AG, Munique, Alemanha

As equipes devem se expandir para se adaptar e se preparar para o potencial de novos clientes. As empresas que usavam processadores de pagamentos baseados na Grã-Bretanha enfrentam a perspectiva de regulamentos e taxas adicionais. Alguns decidiram mudar para processadores de pagamentos baseados na UE — como a Wirecard. “Minha empresa e meu setor já estão tendo impactos positivos na Alemanha”, disse Massimo.

NA VANGUARDA

Transitar pela pista mais rápida da UE também requer líderes de projeto que possam influenciar as partes interessadas e criar uma visão estratégica para cada iniciativa em meio a constantes mudanças. Como resultado, as organizações na Alemanha darão mais ênfase às habilidades das pessoas, disse Thomas.

“A nova economia e seus projetos serão dominados por maior flexibilidade, requisitos sempre em mudança, menos hierarquia, mais equipes multifuncionais, mais abordagens ágeis e híbridas, e cada vez mais interação entre os membros da equipe”, disse ele. “Tudo isso requer habilidades como comunicação, liderança e resolução de conflitos.”

Observar a enxurrada de ajustes será ainda mais assustador com a falta de habilidades de gerenciamento de mudanças entre as organizações, disse Dirk. Os gerentes de mudança estarão posicionados de maneira única para ajudar as organizações a melhorarem a comunicação entre as equipes e “garantir que todos estejam alinhados aos novos procedimentos”, disse Dirk. “Vivemos em um mundo incerto, e os gerentes de projeto sempre precisam ter flexibilidade, mas o Brexit contribuirá para isso.”

Ter fortes habilidades de comunicação e planejamento ajudará os gerentes de projeto a enfrentar uma névoa de requisitos variáveis que certamente aumentarão os obstáculos que as equipes enfrentam, disse Massimo. “As habilidades interpessoais são as mais importantes para os gerentes de projeto, especialmente com o Brexit e as mudanças nas regulamentações.”

Maior complexidade é outra certeza, disse Dirk. Lidar com novos regulamentos significa que os profissionais de projeto “terão que incorporar um trabalho regulatório adicional em seus projetos”, disse ele.

Por exemplo, o setor de processamento de pagamentos recentemente se ajustou à Diretiva de Serviços de Pagamento revisada, que exige autenticação de dois fatores para a maioria dos pagamentos eletrónicos, bem como para outras medidas de segurança do cliente. A nova diretiva entrou em vigor em setembro de 2019, o que significa que as equipes lançaram preventivamente projetos para atualizar o software existente ou criar um novo software que tornará toda a infraestrutura compatível. Da mesma forma, a indústria de fabricação de dispositivos médicos da Europa está adotando o novo Regulamento de Dispositivos Médicos da UE, que entrará em vigor no próximo ano. Mas os fabricantes de dispositivos médicos pós-Brexit, no Reino Unido, serão regulamentados pela Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos de Saúde de seu país. Obter dispositivos britânicos aprovados e certificados pela UE aumentará a complexidade e os custos, disse Thomas.

“Isso pode ser um grande problema para a entrega de dispositivos médicos e pode causar atrasos e escassez de produtos em potencial”, disse ele. As regulamentações adicionadas criarão uma necessidade mais intensa de gerentes de projeto com habilidades de gerenciamento de riscos, robustas acrescentou ele.

Independentemente do que aconteça com o Brexit, a principal meta das organizações da Alemanha será ganhar uma vantagem em uma UE reformulada. Para as equipes de projeto, a capacidade de traduzir oportunidades em ação significará agregar valor em um ambiente de negócios instável.

“Se você entregar dentro do prazo e do orçamento, mas o projeto não fornecer o que a empresa precisa, não será um gerente de projeto tão valioso”, disse Dirk. “Portanto, os gerentes de projetos na Alemanha precisam entender os benefícios de seus projetos e pensar mais como líderes de negócios do que como executores de projetos.” PM

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— Dirk Nadler, PMP, CSL Behring, Marburg, Alemanha

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Fontes: Eurostat, 2018; Banco Mundial, 2018

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