Uma abordagem sobre o ensino de gerenciamento de projectos

An approach regarding the teaching of project management

Abstract

O tema gerenciamento de projetos vem ocupando um lugar de destaque no mundo empresarial e tem se tornado cada vez mais presente como um eixo nos Institutos de Ensino Superior (IES's). O ensino deve ter uma característica onde a parte prática, através do fazer, tem uma importância fundamental para a formação dos futuros profissionais na área de gerência de projetos. Métodos e instrumentos específicos de ensino devem ser utilizados para a criação da verdadeira percepção, que envolve conhecimentos teóricos aliados à uma prática na qual o mundo real se torne cada vez mais presente nas atividades da formação dos futuros gerentes de projeto.

Introdução

O ensino em gerência de projetos tem, na indução, o seu maior instrumento, sendo a pergunta uma arma essencial no aprendizado, capacitando na arte de formular questões pertinentes, que geralmente não apontam somente para um caminho, mas para várias alternativas diferentes.

As pequenas e médias empresas estão se tornando, de modo consistente e incremental, de suma importância para o futuro econômico de todos os países que buscam de algum modo uma melhor inserção na economia mundial, e a gerência de projetos é um dos instrumentos que possibilitam uma maior chance de sucesso para que as mesmas atinjam suas metas.

A importância da gerência de projetos é realçada na indicação de que todas as empresas de um modo ou de outro trabalham sob a égide da mesma. A finalidade do gerenciamento é a satisfação dos desejos e necessidades dos indivíduos, materializada através da obtenção de um retorno, tendo como base a aplicação de recursos. São razões da expansão do eixo de gerência de projetos: a existência de oportunidades para novas frentes de negócios, a percepção de sua existência e a capacidade de aproveitá-las.

Uma das iniciativas fundamentais dentro deste processo têm sido as ações associadas à formação e ao desenvolvimento da gerência de projetos. Os novos cursos e disciplinas ministradas nos IES's, buscam transmitir novos conhecimentos requeridos pela competição globalizada. Nesse contexto, há, portanto, a necessidade desses alunos de aprender a aprender e transformar esse aprendizado em estratégias e ações empresariais, que se constituem em vantagem competitiva. Uma educação efetiva em gerenciamento de projetos deve preparar as pessoas a serem responsáveis, a se tornarem gerentes de projeto e para contribuir para o desenvolvimento econômico das comunidades empresariais.

Mais recentemente, em alguns cursos superiores, nos deparamos com o ensino da gerência de projetos. Este é um desafio não só para a instituição de ensino como também para os estudantes, que ainda não têm uma percepção adequada da importância de gerencia de projetos em seu caminho profissional.

Para enfrentarmos esta situação, é necessário que tenhamos a capacidade de motivar nossos alunos e encontrar os melhores instrumentos de ensino para podermos obter melhores resultados no ensino desta disciplina nos vários cursos que têm o eixo de Gerencia de Projetos em seus contextos.

Acreditamos que este não é um problema exclusivo de um único IES, mas outras entidades devem se defrontar com este problema e encontrar meios alternativos para solucioná-lo.

Revisão de Literatura

A Educação em Gerenciamento de Projetos

A capacitação em gerenciamento de projetos, dentro de um macro cenário econômico, é essencial, pois é somente através dela que se observa a possibilidade efetiva para a continuidade da dinâmica dos negócios com relativas chances de sucesso.

Desde que se aceita que o gerenciamento de projetos pode ser ensinado, a questão básica subseqüente é: como o gerenciamento de projetos é para ser ensinado?

Estabelecer um método de ensino do gerenciamento de projetos requer um passo inicial de identificação da filosofia básica. A filosofia estabelece a base da qual a teoria de aprendizagem é derivada. Três parâmetros filosóficos principais são consistentes ao longo de um modelo de aprendizagem: a visão do aluno, o tipo de aprendizagem e o papel do professor.

Poucos são os autores que abordam o assunto “Ensino de Gerenciamento de Projetos”. A educação em gerenciamento de projetos deve ser considerada um processo de aprendizado durante toda a vida e deve priorizar o ser em relação ao saber, como um fim em si mesmo. O objetivo final não é instrumental, não é somente transmissão de conhecimentos, mas sim a formação de uma pessoa capaz de aprender a aprender e definir a partir do indefinido.

A criação e o aperfeiçoamento da visão e da possibilidade de criação de cenários, imprescindíveis para um gerente de projetos, passam obrigatoriamente pela capacitação e aperfeiçoamento das habilidades já inerentes e o desenvolvimento das habilidades ainda não existentes, necessárias para a capacidade de criação de vislumbres. A capacitação e o desenvolvimento são como suporte ao processo visionário. A promoção do conhecimento em gerenciamento de projetos, hoje fundamental no mundo empresarial, depende da formação ou criação de um ambiente com condições favoráveis, que podem ser satisfeitas através de uma educação específica e que deve ser utilizada com uma ênfase maior nos seguintes aspectos: (1) expandindo o conjunto de talentos; (2) melhorando a disponibilidade de conhecimentos gerenciais e técnicos.

A teoria como instrumento de ensino ajuda os estudantes o entender as conseqüências de suas decisões, que podem ser de extrema importância para eles no futuro (Fiet, 2000). Eles devem ser ensinados em como aplicar a teoria, dedutivamente, em suas circunstâncias especiais.

O gerenciamento de projetos é um tópico metodológico e, consequentemente, é impossível aprendê-lo somente com teoria: é requerida a aplicação dos conceitos (learning by doing) (Giralt-Mas, 2005). A associação da teoria sobre o gerenciamento de projetos com a necessária parte prática é talvez o único modo que possibilite ao aluno um real aprendizado, colocando-o muito próximo de um mundo real.

O ensino, através da prática e experiência própria, tem sido um conceito importante para os educadores em uma variedade de disciplinas e, no caso do ensino de gerenciamento de projetos, tem uma conotação especial. Jerome Coleman (1976) apud Carland (1997), apresenta uma excelente diferenciação entre o aprendizado prático e o da sala de aula. Ele foca uma seqüência de passos do processo de aprendizagem empregado na sala de aula e no processo experimental. Ele descreve os passos do seguinte modo: (1) receber a informação através de um meio simbólico como livro ou leitura; (2) assimilar e organizar a informação, desde que o princípio geral seja entendido; (3) possibilitar a inferência de uma aplicação particular a partir do princípio geral; (4) se movimentar da esfera de um processo cognitivo e simbólico para a ação.

A metodologia de ensino deve reproduzir, na sala de aula, a forma como o gerente de projetos aprende na realidade: solucionando problemas, trabalhando e criando sob pressão, interagindo com pares e outras pessoas, copiando outros e aprendendo com os próprios erros.

No ensino, deve ser levado em consideração que um dos tópicos importantes da gerência de projetos é definir contextos e cenários, o que exige uma análise e imaginação. Além disso, o conhecimento tácito existente na empresa (intuição, regras não escritas) e o conhecimento explícito de uma organização (manuais, banco de dados, etc.) são base para a decisão e do sucesso do gerente de projetos. Por este motivo, para o desenvolvimento de um curso de gerencia de projetos, deve haver adoção de metodologias de ensino não tradicionais, baseadas nos processos de aprendizado e comportamento assumidos pelos gerentes na vida real.

Segundo Jean-Pierre Béchard apud Duchéneaut (1997), o ensino com abordagem tradicional tem pouco impacto no desenvolvimento de habilidades. Os programas de desenvolvimento de gerentes de projetos poderiam envolver habilidades ligadas à visão e à ação concreta.

O aprendizado é importante tanto para se adaptar às rápidas mudanças nos mercados, como também para gerar inovações. Kolb (1976, 1984) apud Carland (1997), identificou quatro tipos de aprendizado, destacando-se o estilo Convergente, que repousa na conceituação e experimentação ativa, e tem uma vertente maior na resolução de problemas, tomada de decisões e uma aplicação prática das idéias.

Através do estilo convergente, que se enquadra sobremaneira à educação em gerência de projetos, existe a conjunção de conceituação e experimentação, o desenvolvimento pessoal e o aprendizado através do fazer. O desenvolvimento pessoal pode ser feito de modo interativo possibilitando ao estudante a desenvolver suas habilidades em termos de uma consciência própria e dos outros. O aprender fazendo é um acelerador de aquisição de experiência, uma oportunidade que o aluno tem para se defrontar com a realidade, permitindo a possibilidade de falhas sem maiores conseqüências.

O ensino através da prática requer um envolvimento ativo por parte dos alunos. As chamadas novas técnicas são mais práticas e voltadas para um mundo real, por exemplo, através do uso de plano de gerenciamento de projetos, de visitas a gerentes de projetos, participação de palestras e leitura de jornais específicos. Complementarmente, um programa poderia conter estudos de questões, exercícios, matérias complementares e folhas de informações sobre o assunto.

O conhecimento das principais características dos gerentes de projetos bem sucedidos, aliado à identificação das necessidades fundamentais de conhecimentos para a consecução de um gerenciamento eficaz, propicia uma forma de orientar o conteúdo dos programas de sua formação. Estas duas variáveis podem contribuir para a identificação e compreensão do que pode servir de base para o ensino na área.

Reconhece-se, que o conhecimento é a base fundamental e o aprendizado interativo é a melhor forma para os indivíduos, empresas, regiões e países estarem aptos a enfrentar as mudanças em curso, intensificarem a geração de inovações e se capacitarem para uma inserção mais positiva no mercado (Lemos, 2000).

As vantagens do método de sala de aula incluem a redução do tempo e esforço requerido para a aprendizagem de algo novo. Sua desvantagem é que depende fortemente do meio simbólico e depende de uma motivação externa. Por outro lado, o aprendizado experimental é consumidor de tempo; mas, tem uma enorme vantagem, pois depende de uma motivação interna. Além do mais, o aprendizado, através do conceito experimental, é menos facilmente esquecido do que o aprendizado através da assimilação da informação na sala de aula tradicional.

Existem várias ferramentas que podem ser utilizadas no ensino de gerência de projetos. Dentre elas podemos destacar:

  • Aplicações computadorizadas;
  • Seminários;
  • Workshops;
  • Grupos de suporte;
  • Grupos de trabalho;
  • Palestras;
  • Depoimentos.

É importante notar que todos as ferramentas são importantes e que a eficácia delas depende das características de cada turma. A maturidade e conhecimento dos alunos pode ser um ótimo indicativo de quais destas ferramentas melhor se enquadra a cada caso específico.

Com relação à utilização de métodos de ensino, o desenvolvimento de um plano de gerenciamento de um projeto que pode ser considerado como um trabalho final da disciplina, nos parece ser o instrumento mais adequado no ensino do gerenciamento de projetos. Isto é plenamente justificável perante o fato de que é através dele que são viabilizados os estudos práticos do eixo, bem como a aplicação de todos os conceitos transmitidos durante o período letivo. Os métodos de ensino possíveis de serem utilizados são: confecção de um plano de projeto e pesquisa de campo ou visita a empresas.

Uma variável importante que pode nos auxiliar na escolha dos métodos a serem utilizados é a carga horária utilizada na disciplina ou curso, pois a mesma é fundamental para o aprofundamento dos tópicos a serem abordados. Normalmente, a disciplina de 2 créditos (40h) deixa muito pouco tempo para as atividades. Neste caso, sugere-se uma definição precisa de qual é efetivamente o objetivo da disciplina, os critérios de saída da mesma e a adequação dos métodos de ensino em face desses objetivos e critérios de saída.

De acordo com uma pesquisa realizada junto a trinta estudantes do eixo de Gerência de Projetos em um IES, o método mais adequado é a confecção do plano de gerenciamento de projetos, positivo em oitenta de dois por cento dos respondentes, sendo considerada em cem por cento como muito importante e importante.

Conclusão

 

Diante do exposto, tem-se que a confecção de um plano de um projeto, instrumento de ensino que tem como base o fazer, tem um papel fundamental no ensino da gerência de projetos, sendo um instrumento para o aprendizado e contínuo aperfeiçoamento dos alunos.

A educação em gerenciamento de projetos deve fornecer ferramentas e subsídios para que o futuro profissional tenha capacidade de se colocar no mundo real com chances efetivas de sucesso. O ensino deve ter como base o fazer, o contato com o erro e a realidade imediata que nos cerca. Deve abordar os temas mais diversos e métodos e ferramentas de ensino que mais se adequem a esta necessidade de aprendizado, sendo que o conhecimento e o aprendizado interativo formam uma base sólida para o processo.

Pontos considerados como chave e que devem ser observados para a melhoria da eficácia da educação em gerencia de projetos são:

  • Os cursos devem ser motivadores para a atração e interesse dos alunos;
  • Os cursos devem ser de alta qualidade. Os condutores dos cursos devem ser educadores com efetiva experiência prática. Os educadores devem ser continuamente treinados através de programas especiais;
  • Novos modos de ensino devem ser incentivados e criados. Novos casos para estudo devem ser trabalhados, privilegiando os casos locais / regionais;
  • Deve haver uma parceria entre o IES, o mundo empresarial e os estudantes, no sentido de inserir os estudantes no mundo real dos negócios;
  • Os estudos de caso devem englobar casos de sucesso e insucesso.

Referências

Astin, A. S. (1984) Student involvement: A Developmental Theory for Higher Education‥

Carland, J. C. & Carland J. W. (1997, June) Entrepreneurship Education: An Integrated Approach Using an Experimental Learning Paradigm. IntEnt97.

Duchèneaut, B. (1997, May). Entrepreneurship and higher education – from real-life context to pedagogical challenge. IntEnt97.

Fiet, J O. (2000). The Theoretical Side of Teaching Entrepreneurship. Journal of Business Venturing 16, 1-24.

Giralt-Mas, R., & Pala-Schonwalder, P., & Lopez, F., & Bonet-Dalmau, J. (2005, October). Teaching project management in telecommunications engineering. Introducing role-plays, 35th ASEE/IEEE Frontiers in Education Conference, Indianapolis, IN.

Hessen, J. (1999) Teoria do Conhecimento. São Paulo: Martins Fontes.

Karpin, D. (1995) Enterprising Nation, Report of the Industry Task Force on Leadership and Management Skills. Canberra: AGPS.

Lankard, B. A. (1995) New Ways of Learning in the Workplace. ERIC Digest No. 161. Columbus: ERIC Clearinghouse on Adult, Career, and Vocational Education, (ED 385 778)

Lemos, C. (2000, Maio). Inovação na Era do Conhecimento, Parcerias Estratégicas, Brasília, n. 8, 157-179.

McClelland, David. (1967) The achieving society. New York, Macmillam.

This material has been reproduced with the permission of the copyright owner. Unauthorized reproduction of this material is strictly prohibited. For permission to reproduce this material, please contact PMI or any listed author.

©José Luiz Pires, Karina Marinho de Souza
Originally published as a part of 2006 PMI Gflobal Congress Proceedings – Santiago, Chile

Advertisement

Advertisement

Related Content

Advertisement

Publishing or acceptance of an advertisement is neither a guarantee nor endorsement of the advertiser's product or service. View advertising policy.