Depois que o governo iraquiano recuperou Mosul do Estado Islâmico em 2017, ele foi confrontado com estruturas destruídas e danificadas em toda a cidade. À medida que os membros da equipe começaram a restaurar o complexo da mesquita Al-Nouri, de Mosul, de quase 850 anos, eles sabiam que tinham que pensar além de tijolos e cimento para lidar com a recuperação emocional dos residentes também.
“Os pontos de referência são muito importantes no processo de recuperação, porque representam os valores e a identidade da comunidade”, afirmou Maria Rita Acetoso, conservacionista e gerente sênior de projetos da UNESCO, que orienta o projeto de restauração de marcos históricos em Mosul. “Para as novas gerações que crescem em um contexto de extremismo ou violência ou conflito, muitas vezes há um pouco de desconexão com sua própria identidade e com sua própria história. Projetos de restauração podem promover essas reconexões”.
— Maria Rita Acetoso, UNESCO
A reconstrução da mesquita é parte de uma iniciativa maior lançada em 2018 pela UNESCO para reviver o tecido histórico, educacional e cultural de Mosul. No centro de tudo está a revitalização da mesquita, um projeto financiado pelos Emirados Árabes Unidos e guiado pela UNESCO, com o apoio do Ministério da Cultura e Doações Sunitas do Iraque.
Com tantos danos — e tanta significação em jogo —, a equipe dividiu o projeto Al-Nouri em missões paralelas. Uma equipe está reconstruindo o icônico minarete Al-Habda da mesquita, enquanto outra está reimaginando o amplo complexo da mesquita.
Para o desenho do complexo, a UNESCO lançou um concurso global, e um júri independente selecionou o desenho de uma equipe de arquitetos egípcios com base em um conceito inspirado no versículo do Alcorão”… e fez com que vocês, povos e tribos, pudessem se conhecer uns aos outros”. Embora o início da fase de projeto tenha sido adiado em junho, quando um dos principais arquitetos, Salah El Din Hareedy, morreu do COVID-19, a equipe continua comprometida com o objetivo de restaurar a conexão estética e espiritual da mesquita com os residentes.
“Não se trata apenas de autenticidade e integridade dos materiais, mas de reconstituir uma imagem que se encaixe na memória da comunidade que, em última instância, manterá e utilizará aquele marco histórico reconstruído”, disse Maria Rita.
O complexo incluirá pátios, um anfiteatro e um novo Instituto de Arte e Arquitetura Islâmica. Uma ampla praça pública cria um espaço compartilhado para todos os residentes da cidade, incluindo visitantes não muçulmanos. No projeto, a entrada principal da mesquita se abre para uma rua que historicamente ligava as comunidades muçulmana, cristã e judaica de Mosul.
Os líderes do projeto estão focados em colaborar com as partes interessadas locais tanto para construir confiança na renovação quanto para garantir oinvestimento de longo prazo da comunidade namanutenção da mesquita reconstruída, disse MariaRita. Então, depois que alguns arquitetos iraquianoscensuraram publicamente o projeto por não sealinhar o suficiente com a arquitetura islâmica, aUNESCO se reuniu com representantes do grupo para considerar as mudanças.
“Quanto mais pudermos realmente engajá-los em todas as etapas do processo, mais eles se sentirão responsáveis”, disse ela.
Durante a primeira fase do projeto, quando os escombros estavam sendo removidos, a equipe solicitou ao Ministério da Cultura que colocasse arqueólogos no local para coletar e resgatar fragmentos históricos para que pudessem ser reintegrados na construção.
Os membros da equipe da UNESCO também formaram um comitê técnico que incluiu especialistas em engenharia, restauração, arquitetura, paisagem e arqueologia da Universidade de Mosul, que se reúne pelo menos trimestralmente desde as fases iniciais do projeto. E os líderes do projeto incentivaram a participação ativa dos trabalhadores iraquianos. Por exemplo, os planos incluem a reconstrução do minarete no seu lugar original, nas bases que se mantiveram em pé. Assim, a UNESCO nomeou o engenheiro estrutural italiano Stefano De Vito para avaliar os materiais e, em seguida, o instruiu a treinar engenheiros locais para executar as tarefas subsequentes.
Quando a equipe precisou instalar uma rede de sensores no minarete, Maria Rita assinou um plano para treinar trabalhadores locais para realizar a tarefa, embora isso acrescentasse uma semana ao projeto.
O benefício? Mais entusiasmo pelo projeto e um maior sentimento de propriedade entre as partes interessadas locais, disse Maria Rita. “É uma questão de criação de empregos, de ajudar as pessoas a entender que a cultura pode ser uma fonte de renda e também de aumentar suas habilidades e competências — o que remete à sustentabilidade do que estamos fazendo”.